Vladímir Ilich Uliánov LENINE
Que fazer?
Problemas candentes do nosso
movimento
IV
O TRABALHO ARTESANAL DOS ECONOMISTAS E A ORGANIZAÇOM DOS REVOLUCIONÁRIOS
c) A organizaçom de operários e a organizaçom de revolucionários
Se, para um social-democrata, no conceito de «luita económica contra os patrons e o governo» se encontra englobado o de luita política, é natural esperar que o conceito de «organizaçom de revolucionários» fique mais ou menos englobado no de «organizaçom de operários». É o que realmente acontece, de modo que, quando falamos de organizaçom, falamos línguas absolutamente diferentes. Lembro-me, por exemplo, como se fosse ontem, de umha conversa que tivem um dia com um «economista», bastante conseqüente, que eu ainda nom conhecia 100. A conversa girava em torno da brochura Quem Fará a Revoluçom Política? Rapidamente coincidimos na opiniom de que o defeito principal desta brochura era o de nom ter em conta a questom da organizaçom. Pensávamos já estar de acordo, mas... ao continuar a conversa, apercebemo-nos que falávamos de cousas diferentes. O meu interlocutor acusava o autor de nom ter em conta as caixas de greve, as sociedades de socorros mútuos, etc.; eu, polo meu lado, pensava na organizaçom de revolucionários indispensável para «fazer» a revoluçom política. E, a partir do momento em que esta divergência se revelou, nom me recordo de ter estado algumha vez de acordo com este «economista» sobre qualquer questom de princípio!
Mas em que consistia o motivo das nossas divergências? Nem mais nem menos no facto de os «economistas» se desviarem constantemente da social-democracia para o trade-unionismo, tanto no que se refere às tarefas de organizaçom como às tarefas políticas. A luita política da social-democracia é muito mais ampla e mais complexa do que a luita económica dos operários contra os patrons e o governo. Do mesmo modo (e como conseqüência disto), a organizaçom de um partido social-democrata revolucionário deve ser, inevitavelmente, de um género diferente da organizaçom dos operários para a luita económica. A organizaçom de operários deve ser, em primeiro lugar, sindical; em segundo lugar, deve ser o mais ampla possível; em terceiro lugar, deve ser o menos clandestina possível (aqui e no que se segue, refiro-me, bem entendido, apenas à Rússia autocrática). Polo contrário, a organizaçom de revolucionários deve englobar, antes de tudo e sobretudo, pessoas cuja profissom seja a actividade revolucionária (por isso falo de umha organizaçom de revolucionários, pensando nos revolucionários social-democratas). Perante esta característica geral dos membros de umha tal organizaçom, deve desaparecer por completo toda a distinçom entre operários e intelectuais, para nom falar já da distinçom entre as diferentes profissons de uns e outros. Necessariamente, esta organizaçom nom deve ser muito extensa, e é preciso que seja o mais clandestina possível. Detenhamo-nos nestes três pontos distintivos.
Nos países que gozam de liberdade política, a diferença entre a organizaçom sindical e a organizaçom política é perfeitamente clara, como também é clara a diferença entre as trade-unions e a social-democracia. É claro que as relaçons entre esta última e as trade-unions variam inevitavelmente de país para país, segundo as condiçons históricas, jurídicas, etc., podendo ser mais ou menos estreitas, complexas, etc. (devem ser, na nossa opiniom, o mais estreitas e o menos complexas possível), mas, nos países livres, nem sequer se pom o problema de identificar a organizaçom dos sindicatos com a organizaçom do partido social-democrata. Na Rússia, contudo, o jugo da autocracia apaga, à primeira vista, qualquer distinçom entre a organizaçom social-democrata e as associaçons operárias porque todas as associaçons operárias a todos os círculos estám proibidos, e a greve, principal manifestaçom e arma de luita económica dos operários, é considerada em geral como um crime de direito penal (por vezes mesmo como um delito político!). Assim, as condiçons da Rússia, por um lado, «incitam» fortemente os operários que luitam no terreno económico a pensar nas questons políticas, e, por outro, «incitam» os social-democratas a confundir o trade-unionismo com a social-democracia (e os nossos Kritchévski, Martínov e C.ª, que nom param de falar sobre o «incitamento» do primeiro género, nom notam o «incitamento» do segundo género). Com efeito, imaginemos pessoas absorvidas noventa e nove por cento pola «luita económica contra os patrons e o governo». Ante uns, nem umha só vez se porá a pergunta, durante todo o período da sua actividade (de 4 a 6 meses), da necessidade de umha organizaçom mais complexa de revolucionários. Outros, talvez, «tropeçarám» com a literatura bernsteiniana, relativamente bastante difundida, e adquirirám a convicçom de que o que tem umha importáncia essencial é a «marcha progressiva da cinzenta luita quotidiana». Outros, enfim, deixarám-se, talvez, seduzir pola ideia tentadora de dar ao mundo um novo exemplo de «estreita ligaçom orgánica com a luita operária», de ligaçom do movimento sindical com o movimento social-democrata. Quanto mais tarde chega um país ao capitalismo e, por conseguinte, ao movimento operário, dirám essas pessoas, tanto mais podem os socialistas participar no movimento sindical e apoiá-lo, e tanto menos pode e deve haver sindicatos nom social-democratas. Até aqui, este raciocínio é perfeitamente correcto, mas o mal é que vam mais longe e sonham com umha fusom completa entre a social-democracia e o trade-unionismo. Vamos ver, em seguida, a partir do exemplo dos «Estatutos da Uniom de luita de Sam Petersburgo» a influência prejudicial destes sonhos sobre os nossos planos de organizaçom.
As organizaçons operárias para a luita económica devem ser organizaçons sindicais. Todo o operário social-democrata deve, dentro do possível, apoiar estas organizaçons e nelas trabalhar activamente. De acordo. Mas é absolutamente contrário aos nossos interesses exigir que só os social-democratas podam ser membros das unions «profissionais», já que isso reduziria a nossa influência sobre a massa. Que participe na uniom profissional todo o operário que compreenda a necessidade da uniom para a luita contra os patrons e o governo. O próprio objectivo das unions profissionais seria inexequível se nom agrupassem todos os operários a quem é acessível ainda que mais nom fosse este degrau elementar de compreensom, se estas unions profissionais nom fossem organizaçons muito amplas. E quanto mais amplas forem estas organizaçons, tanto mais ampla será a nossa influência nelas, influência exercida nom somente polo desenvolvimento «espontáneo» da luita económica, mas também pola acçom consciente e directa dos membros socialistas das unions sobre os seus camaradas. Mas, numha organizaçom ampla, a clandestinidade rigorosa é impossível (pois exige muito mais preparaçom do que a necessária para participar na luita económica). Como conciliar esta contradiçom entre a necessidade de contar com efectivos numerosos e o regime clandestino rigoroso? Como conseguir que as organizaçons profissionais sejam o menos clandestinas possível? Em geral, nom pode haver mais do que duas vias: ou a legalizaçom das associaçons profissionais (que em certos países precedeu a legalizaçom das associaçons socialistas e políticas), ou a manutençom da organizaçom secreta, mas tam «livre», tam pouco formalizada, tam lose, como dim os alemáns, que para a massa dos membros o regime clandestino fique reduzido a quase nada.
A legalizaçom das unions operárias nom socialistas e nom políticas já começou na Rússia e nom pode caber a menor dúvida de que cada passo do nosso movimento operário social-democrata, que cresce em progressom rápida, multiplicará e encorajará as tentativas de legalizaçom, tentativas realizadas sobretudo polos partidários do regime vigente, mas também, em parte, polos próprios operários e os intelectuais liberais. A bandeira da legalizaçom já foi içada polos Vassíliev e os Zubátov; os senhores Ozerov e os Worms já prometêrom e dérom o seu concurso à legalizaçom, e a nova corrente já encontrou adeptos entre os operários. E nós nom podemos deixar de ter em conta esta corrente. Sobre a maneira de a ter em conta, dificilmente pode existir, entre os social-democratas, mais do que umha opiniom. O nosso dever consiste em desmascarar constantemente toda a participaçom dos Zubátov e dos Vassíliev, dos gendarmes e dos padres nesta corrente, e revelar aos operários as verdadeiras intençons destes elementos. O nosso dever consiste em desmascarar também a nota conciliadora, de «harmonia», que se manifeste nos discursos dos liberais nas reunions públicas de operários, quer essas notas se devam a que essas pessoas estejam sinceramente convencidas que é desejável umha colaboraçom pacífica das classes, quer tenham a intençom de ficar bem vistas polas autoridades, quer sejam simplesmente inábeis. Devemos, enfim, pôr os operários em guarda contra as armadilhas da polícia que, freqüentemente, nestas reunions públicas e nas sociedades autorizadas observa os «mais ardorosos» e procura aproveitar-se das organizaçons legais para introduzir provocadores também nas ilegais.
Mas fazer tudo isto nom significa de modo nengum esquecer que a legalizaçom do movimento operário, beneficiará-nos, no fim de contas, a nós e nom de modo algum, aos Zubatov. Polo contrário, precisamente com a nossa campanha de denúncias separamos o trigo do joio. Já mostramos qual é o joio. O trigo consiste em interessar polas questons sociais e políticas sectores operários ainda mais vastos, os sectores mais atrasados; em nos libertarmos, nós, os revolucionários, das funçons que som, no fundo, legais (difusom de obras legais, socorros mútuos, etc.) e cujo desenvolvimento nos dará, infalivelmente, materiais cada vez mais abundantes para a agitaçom. Neste sentido, podemos e devemos dizer aos Zubátov e aos Ózerov: Trabalhem, senhores, trabalhem! Enquanto vocês montam umha armadilha aos operários (ou pola provocaçom directa ou pola corrupçom «honesta») dos operários com a ajuda do «struvismo») nós vamo-nos encarregando de os desmascarar. Enquanto vocês dam um passo efectivo para a frente –mesmo que seja sob a forma do mais «tímido ziguezague», mas, apesar disso, um passo em frente–, diremos a vocês: Fagam o favor! Um passo efectivo para a frente nom pode ser senom um alargamento efectivo, mesmo que minúsculo, do campo de acçom dos operários. E todo o alargamento deste género beneficiará-nos e apressará o aparecimento de associaçons legais, onde nom serám os provocadores que pescarám os socialistas, mas os socialistas que pescarám adeptos da sua causa. Numha palavra, a nossa tarefa consiste agora em combater o joio. A nossa tarefa nom consiste em semear o trigo em pequenos vasos. Ao arrancar o joio, limpamos o terreno para que o trigo poda crescer. E enquanto os Afanássi Ivánovitch e as Pulkhéria Ivánovna 101 se dedicam ao cultivo doméstico, devemos preparar ceifeiros que hoje saibam arrancar o joio e amanhá ceifar o trigo 102.
Assim, nós nom podemos, por meio da legalizaçom, resolver o problema da criaçom de umha organizaçom sindical o menos clandestina e o mais ampla possível (mas ficaríamos encantados se os Zubátov e os Ozerov nos oferecessem a possibilidade, mesmo parcial, de resolver o problema deste modo –para o que temos de os combater com a maior energia possível!). Resta-nos o recurso das organizaçons sindicais secretas e devemos prestar toda a ajuda aos operários que seguem já (segundo sabemos com toda a certeza) por esse caminho. As organizaçons sindicais podem nom só ser extraordinariamente úteis para desenvolver e reforçar a luita económica, como podem tornar-se, além disso, um auxiliar valioso da agitaçom política e da organizaçom revolucionária. Para chegar a este resultado, para orientar o movimento sindical nascente na senda desejável para a social-democracia, é preciso, antes de mais, compreender bem o absurdo do plano de organizaçom que os «economistas» de Petersburgo preconizam, há já cerca de cinco anos. Este plano foi exposto nos Estatutos da caixa operária de resistência, de Julho de 1897 (List. «Rab.», n.º 9-10, p. 46, do n.º 1 do Rab. Misl) e nos Estatutos da organizaçom operária sindical, de Outubro de 1900 (boletim especial, impresso em Sam Petersburgo e mencionado no n.º 1 do Iskra). Estes dous estatutos tenhem um defeito essencial: regulamentam com todo o pormenor umha vasta organizaçom operária e confundem-na com a organizaçom dos revolucionários. Tomemos os segundos estatutos, por serem os que estám melhor elaborados. Componhem-se de cinqüenta e dous parágrafos: 23 exponhem a estrutura, o modo de administraçom os limites de competência dos «círculos operários» que serám organizados em cada fábrica («dez homens no máximo») e elegerám os «grupos centrais» (de fábrica). «O grupo central –di o § 2– observa tudo o que se passa na fábrica e tem a seu cargo a crónica dos acontecimentos.» «O grupo central presta contas do estado da caixa, mensalmente, a todos os contribuintes» (§ 17), etc. Som consagrados 10 parágrafos à «organizaçom de bairro» e 19 à complicadíssima relaçom do «Comité da organizaçom operária» e do «Comité da uniom de luita de Sam Petersburgo» (delegados de cada bairro e dos «grupos executivos» –«grupos de propagandistas, para as relaçons com as províncias, para as relaçons com o estrangeiro, para a administraçom dos depósitos, das ediçons, da caixa»).
A social-democracia = a «grupos executivos» no que se refere à luita económica dos operários! Seria difícil demonstrar com mais evidência como o pensamento do «economista» se desvia da social-democracia para o trade-unionismo; até que ponto lhe é estranha toda a noçom de que o social-democrata deve, acima de tudo, pensar numha organizaçom de revolucionários capazes de dirigir toda a luita emancipadora do proletariado. Falar da «emancipaçom política da classe operária», da luita contra a «arbitrariedade tsarista» e redigir semelhantes estatutos de umha organizaçom é nom ter a menor ideia de quais sejam as verdadeiras tarefas políticas da social-democracia. Nem um só da meia centena de artigos revela o mínimo de compreensom, por parte dos autores, da necessidade da mais ampla agitaçom política entre as massas, de umha agitaçom que lance luz sobre todos os aspectos do absolutismo russo, bem como sobre a fisionomia das diferentes classes sociais da Rússia. Por outro lado, com tais estatutos, nom só som irrealizáveis os fins políticos, mas mesmo os fins trade-unionistas, pois estes exigem umha organizaçom por profissons, cousa que os estatutos nem sequer mencionam.
Mas o mais característico é, talvez, o peso espantoso de todo este «sistema» que procura ligar cada fábrica ao «comité» por intermédio de umha série de regras uniformes, minuciosas até o ridículo, com um sistema eleitoral de três graus. Encerrado no estreito horizonte do «economismo», o pensamento perde-se nos pormenores que cheiram a papelada e burocracia. Na realidade, três quartos dos parágrafos nunca serám, claro está, aplicados; em contrapartida, umha organizaçom tam «clandestina», com um grupo central em cada fábrica, torna fácil que os gendarmes efectuem vagas de prisons incrivelmente vastas. Os camaradas polacos já passárom por esta fase do movimento; houvo umha altura em que todos eles estavam entusiasmados com a ideia de criar caixas operárias por toda a parte, mas renunciárom a ela sem tardar quando se convencêrom que só davam umha colheita abundante aos gendarmes. Se queremos amplas organizaçons de operários e nom amplas vagas de prisons, se nom queremos fazer o gosto aos gendarmes, devemos fazer com que estas organizaçons nom sejam formalizadas. Mas poderám entom funcionar? – Vejamos quais som as suas funçons: «... Observar tudo o que se passa na fábrica e fazer a crónica dos acontecimentos» (§ 2 dos Estatutos). Será absolutamente necessário regulamentar isto? nom seria este objectivo muito melhor atingido por meio de crónicas na imprensa ilegal, sem necessidade de criar grupos especiais para esse efeito? «... Dirigir a luita dos operários pola melhoria da sua situaçom na fábrica» (§ 3 dos Estatutos). Para isto também nom há nengumha necessidade de regulamentaçom. Todo o agitador, com dous dedos de testa, saberá averiguar perfeitamente, através de uma simples conversa, quais som as reivindicaçons que os operários querem apresentar; depois saberá transmiti-las a umha organizaçom restrita, e nom ampla, de revolucionários que editará umha folha volante apropriada. « ...Criar umha caixa ...com umha quotizaçom de dous copeques por rublo» (§ 9) e dar mensalmente conta a todos os contribuintes do estado da caixa (§ 17); excluir os membros que nom paguem a sua quotizaçom (§ 10), etc. Eis para a polícia um verdadeiro paraíso, porque nom há nada mais fácil do que penetrar no segredo de cada «caixa central de fábrica», confiscar o dinheiro e encarcerar todos os elementos activos. Nom seria mais simples emitir selos de um ou dous copeques, com o carimbo de umha certa organizaçom (muito restrita e muito secreta), ou mesmo sem qualquer carimbo, fazer recolhas de fundos cujos resultados seriam dados a conhecer num jornal ilegal, com umha linguagem convencional? Alcançariam-se os mesmos objectivos e os gendarmes teriam muitíssimo mais trabalho para deslindar os fios da organizaçom.
Poderia continuar esta análise dos Estatutos, mas creio já ter dito o bastante. Um pequeno núcleo bem unido, composto polos operários mais seguros, mais experientes e mais bem temperados, com delegados nos principais bairros, e em rigorosa ligaçom clandestina com a organizaçom de revolucionários poderá perfeitamente, com o mais amplo concurso da massa e sem nengumha regulamentaçom, realizar todas as funçons que competem a umha organizaçom sindical e, além disso, realizá-las precisamente da maneira desejável para a social-democracia. Só assim se poderá consolidar e desenvolver, apesar de todos os gendarmes, o movimento sindical social-democrata.
Objectarám-me que umha organizaçom tam lose, que nom está formalizada, sem nengum membro conhecido e registado, nom pode ser classificada de organizaçom. – É possível, para mim a denominaçom nom tem importáncia. Mas esta «organizaçom sem membros» fará tudo o que é necessário e assegurará, desde o próprio início, um contacto sólido entre as nossas futuras trade-unions e o socialismo. Aqueles que, sob o absolutismo, querem umha ampla organizaçom de operários, com eleiçons, relatórios, sufrágio universal, etc., som uns utopistas incuráveis.
A moral é simples: se começarmos por estabelecer de umha maneira sólida umha forte organizaçom de revolucionários, podemos assegurar a estabilidade do movimento no seu conjunto e atingir, simultaneamente, os objectivos social-democratas e os objectivos propriamente trade-unionistas. Mas se começarmos por constituir umha ampla organizaçom operária com o pretexto de que esta é a mais «acessível» à massa (na realidade, é aos gendarmes que esta organizaçom será mais acessível e porá os revolucionários mais ao alcance da Polícia) nom atingiremos qualquer destes objectivos, nom nos desembaraçaremos do nosso trabalho artesanal e, com o nosso fraccionamento e os nossos fracassos contínuos, nom faremos senom tornar acessíveis à massa as trade-unions do tipo Zubátov ou Ózerov.
Quais deverám ser, propriamente, as funçons desta organizaçom de revolucionários? –Vamos dizê-lo com todo o pormenor. Mas examinemos primeiro um raciocínio muito típico do nosso terrorista que, mais umha vez (triste destino!), anda de braço dado com o «economista». A revista para operários Svoboda (no seu número 1) contém um artigo intitulado «A organizaçom», cujo autor procura defender os seus amigos, os «economistas» operários de Ivánovo-Voznessensk.
«É umha cousa má –di ele– umha multidom silenciosa, inconsciente; é umha cousa má um movimento que nom vem da base. Vede o que sucede numha cidade universitária: quando os estudantes, na época das festas ou durante o Verao, regressam às suas casas, o movimento operário paralisa. Pode ser umha verdadeira força um movimento operário assim, estimulado de fora? De maneira nengumha... Ainda nom aprendeu a andar sozinho, tem que ser amparado. O mesmo se passa em todos os lugares: os estudantes vam-se e o movimento cessa; encarceram-se os elementos mais capazes, a nata, e o leite azeda; prende-se o «comité» e enquanto nom se forma um novo sobrevém mais umha vez a calma. E nom se sabe o que será este novo «comité»; talvez em nada se pareça com o antigo; aquele dizia umha cousa, este dirá o contrário; a ligaçom entre o ontem e o amanhá está quebrada; a experiência do passado nom beneficia o futuro, e tudo porque o movimento nom tem raízes profundas na multidom; porque nom som umha centena de patetas, mas umha dezenas de homens inteligentes quem fai o trabalho. E umha dezena de homens caem sempre facilmente na boca do lobo; mas, quando a organizaçom engloba a multidom, quando tudo vem da multidom é impossível destruir a causa» (p. 63).
A descriçom dos factos é correcta. Dá um bom quadro do nosso trabalho artesanal. Mas as conclusons, pola sua falta de lógica e de tacto político, som dignas do Rabótchaia Misl. É o cúmulo da falta de lógica, porque o autor confunde o problema filosófico e histórico-social das «profundas raízes» do movimento com umha questom técnica de organizaçom como é a da luita mais eficaz contra os gendarmes. É o cúmulo da falta de tacto político porque, em vez de se apelar para os bons dirigentes contra os maus, o autor apela para a «multidom» contra os dirigentes em geral. Isto significa tentar fazer-nos retroceder no que se refere a organizaçom, do mesmo modo que a ideia de substituir a agitaçom política polo terror excitante nos fai retroceder no sentido político. Na verdade, encontro-me perante um verdadeiro embarras de richesses 103, sem saber por onde começar a análise da confusom que nos é oferecida polo Svoboda. Para maior clareza, começarei por um exemplo: o dos alemáns. Ninguém negará, espero, que a sua organizaçom engloba a multidom, que entre eles tudo vem da multidom, que o movimento operário aprendeu a andar sozinho. Contudo, como esta multidom de vários milhons de homens sabe apreciar a sua «dezena» de chefes políticos experimentados, como adere a eles! Mais de umha vez, no parlamento, os deputados dos partidos adversos tenhem procurado provocar os socialistas dizendo-lhes: «Sodes uns belos democratas! O movimento da classe operária nom existe entre vós senom em palavras; na realidade, é sempre o mesmo grupo de chefes que se mostra. Desde há anos, desde há dezenas de anos, som sempre o mesmo Bebel e o mesmo Liebknecht! Os vossos delegados de operários, pretensamente eleitos som mais inamovíveis que os funcionários nomeados polo imperador!» Mas os alemáns sempre acolhêrom com um sorriso de desprezo estas tentativas demagógicas de opor a «multidom» aos «chefes», de nela despertar maus instintos de vaidade, de privar o movimento de solidez e estabilidade, minando a confiança que a massa sente pola «dezena de homens inteligentes». Os alemáns atingírom já suficiente desenvolvimento político, tenhem suficiente experiência política, para compreender que, sem «umha dezena» de chefes de talento (e os talentos nom surgem às centenas), de chefes provados, profissionalmente preparados e instruídos por umha longa prática e bem unidos entre si, nom é possível, na sociedade contemporánea, a luita firme de qualquer classe. Também os alemáns tivérom os seus demagogos, que adulavam as «centenas de patetas», colocando-as acima das «dezenas de homens inteligentes»; que bajulavam o «punho poderoso» da massa, empurravam (como Most ou Hasselmann) esta massa para acçons «revolucionárias» irreflectidas e semeavam a desconfiança em relaçom com os chefes firmes e inabaláveis. E foi unicamente graças a umha luita tenaz e intransigente contra os elementos demagógicos de toda a espécie instalados no seu seio que o socialismo alemám cresceu e se fortaleceu. E neste período em que toda a crise da social-democracia russa se explica polo facto de as massas, que despertam espontaneamente, nom terem chefes suficientemente preparados, inteligentes e experimentados, os nossos sabichons dim-nos com a ingenuidade digna de um pateta: «Má cousa é, quando um movimento nom vem da base!»
«Um comité formado por estudantes nom nos convém porque é instável. «Perfeitamente justo! Mas a conclusom a tirar é que o que é necessário é um comité de revolucionários profissionais, sem que importe se som estudantes ou operários os que som capazes de fazer a sua educaçom como revolucionários profissionais. polo contrário, vós tirades a conclusom de que nom é necessário estimular do exterior o movimento operário! Na vossa ingenuidade política, nem sequer dades conta de que fazedes o jogo dos nossos «economistas» e do nosso trabalho artesanal. Permitide que vos faga umha pergunta: Como é que os nossos estudantes «estimulárom» até agora os nossos operários? Unicamente levando os estudantes aos operários os fragmentos de conhecimentos políticos que eles próprios tinham, os fragmentos de ideias socialistas que eles tinham podido adquirir (porque o principal alimento espiritual do estudante dos nossos dias, o marxismo legal, nom pudo dar-lhe mais do que as primeiras letras, mais do que fragmentos). E este «estímulo de fora» nom foi muito considerável, mas, polo contrário, insignificante, escandalosamente insignificante no nosso movimento. Porque até agora nom figemos mais do que cozinhar-nos demasiadamente no nosso próprio molho, do que nos prosternar com demasiado servilismo perante a elementar «luita económica dos operários contra os patrons e o governo». Nós, revoluclonários de profissom, devemos dedicar-nos cem vezes mais a este género de estímulos, e dedicaremo-nos. Mas precisamente porque escolhedes essa odiosa expressom de «estímulo de fora» que, inevitavelmente, provoca no operário (pelo menos no operário tam pouco desenvolvido como vós) a desconfiança em relaçom com todos os que lhe trazem de fora conhecimentos políticos e experiência revolucionária, e que desperta nele o desejo instintivo de repelir todas as pessoas deste género, agis como demagogos; e os demagogos som os piores inimigos da classe operária.
Sim, sim! E nom vos apressedes a gritar contra os meus «procedimentos» polémicos «sem espírito de camaradagem»! nom tenho dúvidas quanto à pureza das vossas intençons; já dixem que a ingenuidade política por si só também pode converter umha pessoa em demagogo. Mas demonstrei que descestes até a demagogia, e nunca me cansarei de repetir que os demagogos som os piores inimigos da classe operária. Som os piores porque excitam os maus instintos da multidom, e porque é impossível aos operários atrasados reconhecer estes inimigos, que se apresentam, às vezes sinceramente, na qualidade de amigos. Som os piores porque, neste período de dispersom e de vacilaçom, em que a fisionomia do nosso movimento ainda se está a formar, nada há de mais fácil do que arrastar demagogicamente a multidom, que só as provaçons mais amargas poderám depois convencer do seu erro. Eis porque, neste momento, a palavra de ordem para os social-democratas russos actuais deve ser a de combater resolutamente tanto o Svoboda que está a descer até à demagogia como a Rabotcheie Dielo que está a descer até a demagogia (mais adiante voltaremos mais pormenorizadamente a este assunto 104).
«É mais fácil caçar umha dezena de homens inteligentes do que umha centena de parvos.» Esta verdade magnífica (que vos trará sempre os aplausos da centena de parvos) parece evidente unicamente porque, no curso do vosso raciocínio, saltastes de umha questom para outra. Começastes e continuades a falar da captura do «comité», da captura da «organizaçom», e agora saltades para outra questom: para a captura das «raízes profundas» do movimento. Naturalmente, o nosso movimento é indestrutível só porque tem centenas e centenas de milhares de raízes profundas, mas nom é isto que está em causa, de modo nengum. Nem mesmo agora, apesar do nosso trabalho artesanal, é possível «capturar-nos», no que se refere às nossas «raízes profundas», e, todavia, todos deploramos e nom podemos deixar de deplorar a captura das «organizaçons», o que destrói toda a continuidade no movimento. Pois bem, já que levantades o problema da captura das organizaçons e insistides em discuti-la, direi-vos que é muito mais difícil caçar umha dezena de homens inteligentes do que umha centena de patetas, e continuarei a defender este ponto de vista, sem fazer caso dos vossos esforços para atiçar a multidom contra o meu «espírito antidemocrático», etc. Por «homens inteligentes» em matéria de organizaçom deve-se entender, como o indiquei em várias ocasions, apenas os revolucionários profissionais, quer sejam estudantes ou operários que se forjem como tais revolucionários profissionais. Pois bem, eu afirmo: 1) que nom pode haver movimento revolucionário sólido sem umha organizaçom estável de dirigentes, que assegure a continuidade; 2) que quanto mais extensa for a massa espontaneamente integrada na luita, massa que constitui a base do movimento e que nele participa, mais premente será a necessidade de semelhante organizaçom e mais sólida deverá ela ser (já que será mais fácil aos demagogos de toda a espécie arrastar as camadas atrasadas da massa); 3) que tal organizaçom deve ser formada, fundamentalmente, por homens entregues profissionalmente às actividades revolucionárias; 4) que num país autocrático, quanto mais restringirmos o contingente dos membros de umha organizaçom deste tipo, a ponto de nom incluir nela senom os filiados que se ocupem profissionalmente de actividades revolucionárias e que tenham já umha preparaçom profissional na arte de luitar contra a polícia política, mais difícil será «caçar» esta organizaçom, e -5) –maior será o número de pessoas, tanto da classe operária como das demais classes da sociedade, que poderám participar no movimento e colaborar activamente nele.
Convido os nossos «economistas», terroristas e «economistas-terroristas» 105 a refutar estas teses, das quais nom desenvolverei, neste momento, senom as duas últimas. O problema de saber se é mais fácil pescar umha «dezena de homens inteligentes» do que umha «centena de patetas» reduz-se ao problema que analisei mais atrás, de saber se umha organizaçom de massas é compatível com a necessidade de manter um rigoroso regime clandestino? Nunca poderemos elevar umha organizaçom ampla ao nível da clandestinidade, sem a qual nem sequer se pode falar de umha luita firme e continuada contra o governo. E a concentraçom de todas as funçons clandestinas nas maos do menor número possível de revolucionários profissionais nom significa, de maneira algumha, que estes últimos «pensarám por todos», que a multidom nom tomará umha parte activa no movimento. Polo contrário, a multidom fará surgir do seu seio um número cada vez maior de revolucionários profissionais, porque saberá entom que nom basta que alguns estudantes e operários que luitam no terreno económico se reúnam para constituir um «comité», mas que é necessário, através dos anos, educar-se como revolucionários profissionais, e «pensará» nom somente no trabalho artesanal, mas precisamente nesta educaçom. A centralizaçom das funçons clandestinas da organizaçom nom implica, de maneira algumha, a centralizaçom de todas as funçons do movimento. A colaboraçom activa das mais amplas massas na literatura ilegal, longe de diminuir, decuplicará, quando umha «dezena» de revolucionários profissionais centralizar as funçons clandestinas dessa actividade. Assim, e só assim, conseguiremos que a leitura da literatura ilegal, a colaboraçom nela, e mesmo, em certa medida, a sua difusom, deixem quase de ser umha obra clandestina, pois a polícia compreenderá rapidamente quanto som absurdas e impossíveis as perseguiçons judiciais e administrativas por causa de cada exemplar de publicaçons distribuídas em milhares de exemplares. E isto é válido nom só para a imprensa, mas também para todas as funçons do movimento, incluindo as manifestaçons. A participaçom nom só nom ficará prejudicada, mas, polo contrário, terá muito mais probabilidades de êxito se umha «dezena» de revolucionários profissionais, provados, bem preparados, polo menos tam bem como é a nossa polícia, centralizar todos os aspectos clandestinos: ediçom de panfletos, elaboraçom do plano aproximado, nomeaçom de um grupo de dirigentes para cada bairro da cidade, cada zona fabril, cada estabelecimento de ensino, etc. (dirá-se, já sei, que as minhas concepçons «nom som democráticas», mas mais adiante refutarei em pormenor essa objecçom nada inteligente). A centralizaçom das funçons mais clandestinas pola organizaçom dos revolucionários nom debilitará, antes reforçará a amplitude e o conteúdo da actividade de umha grande quantidade de outras organizaçons destinadas ao grande público e, por conseqüência, o menos regulamentadas e o menos clandestinas possível: sindicatos operários; círculos operários de autodidactas e de leitura de publicaçons ilegais, círculos socialistas, círculos democráticos para todos os outros sectores da populaçom, etc., etc. Estes círculos, sindicatos e organizaçons som necessários por toda a parte; é preciso que sejam o mais numerosos e as suas funçons o mais variadas possível, mas é absurdo e prejudicial confundir estas organizaçons com a dos revolucionários, apagar as fronteiras que existem entre elas, extinguir na massa a consciência, já de si incrivelmente obscurecida, de que para «servir» um movimento de massas é necessário dispor de homens que se consagrem especial e inteiramente à acçom social-democrata, e que estes homens devem forjar-se com paciência e tenacidade até se converterem em revolucionários profissionais.
Sim, esta consciência está incrivelmente obscurecida. O nosso erro principal em matéria de organizaçom consiste em que com o nosso trabalho artesanal comprometemos o prestígio dos revolucionários na Rússia. Um revolucionário mole, vacilante nos problemas teóricos, de horizontes limitados, que justifica a sua inércia com a espontaneidade das massas, mais parecido com um secretário de trade-union do que com um tribuno popular, sem um plano audacioso e de grande alcance que imponha respeito até aos seus adversários, inexperiente e inábil na sua arte profissional (a luita contra a polícia política), nom é, desculpade, um revolucionário, mas um pobre artesao!
Que nengum prático se ofenda com este duro epíteto, pois, no que se refere à falta de preparaçom, aplico-o a mim próprio em primeiro lugar. Trabalhei num círculo 106 que se colocava vastas e multilaterais tarefas, e todos nós, membros do círculo, sofríamos enormemente ao ver que nom éramos mais do que artesaos num momento histórico em que, parafraseando a velha máxima, se poderia dizer: Dade-nos umha organizaçom de revolucionários e revolucionaremos a Rússia! E quanto mais freqüentemente desde entom tivem de recordar o agudo sentimento de vergonha que entom experimentava, tanto mais aumentou em mim a amargura sentida contra esses pseudo-social-democratas cuja propaganda «desonra o título de revolucionário», e que nom compreendem que a nossa tarefa nom consiste em advogar que o revolucionário seja rebaixado ao nível de artesao, mas elevar o artesao ao nível do revolucionário.
[100] Trata-se, aparentemente, da primeira entrevista de V. I. Lenine com A . S. Martínov em 1901. Martínov, nas suas memórias, descreve esta entrevista. (N. Ed.)
[101] Afanássi Ivánovitch e Pulkhéria Ivánovna: família patriarcal de pequenos proprietários rurais, descrita na novela Os Proprietários de Outrora, do escritor russo N. V. Gógol. (N. Ed.)
[102] A luita do Iskra contra o joio provocou, por parte da Rab. Dielo, esta saída indignada: «Para o Iskra, polo contrário, estes importantes acontecimentos (os da Primavera) som menos característicos do seu tempo do que as miseráveis tentativas dos agentes de Zubátov para «legalizar» o movimento operário. O Iskra nom vê que estes factos falam precisamente contra si e testemunham que o movimento operário tomou, aos olhos do governo, proporçons muito ameaçadoras» (Dous Congressos, p. 27). Quem tem a culpa disto tudo é o «dogmatismo» destes ortodoxos «surdos às exigências imperiosas da vida». Obstinam-se em nom ver trigo de um metro de altura, para fazer guerra contra o joio com um centímetro de altura! nom é isto umha deturpaçom do sentido da perspectiva em relaçom com o movimento operário russo»? (Ibidem, p. 27.)
[103] Dificuldade devida à abundáncia. (N. Ed.)
[104] Só faremos notar aqui que tudo quanto dixemos em relaçom com o «estímulo de fora» e a todos os demais raciocínios do Svoboda sobre a organizaçom se refere inteiramente a todos os «economistas», incluindo os partidários da Rabótcheie Dielo, porque ou preconizárom e apoiárom activamente estes mesmos pontos de vista sobre as questons de organizaçom, ou se desviárom na sua direcçom.
[105] Este termo seria talvez mais correcto que o precedente, no que se refere ao Svoboda, porque em O Renascimento do Revolucionarismo defende-se o terrorismo e, no artigo em foco, o «economismo». «Estám verdes, nom prestam ...» pode dizer-se, falando em geral, do Svoboda. O Svoboda tem excelentes aptidons e as melhores intençons e, apesar disso, nom obteve outro resultado além da confusom; confusom principalmente porque, defendendo a continuidade da organizaçom, o Svoboda nom quer saber para nada da continuidade do pensamento revolucionário e da teoria social-democrata. Esforçar-se por ressuscitar o revolucionário profissional (O Renascimento do Revolucionarismo) e propor, para isso, primeiro, o terror excitante e, em seguida, a «organizaçom dos operários médios» (Svoboda n.º 1, pp. 66 e segs.), o menos possível «estimulados de fora», é, na verdade, demolir a própria casa para ter lenha para a aquecer.
[106] V. I. Lenine refere-se ao círculo dos social-democratas de Petersburgo (os «velhos») encabeçado por ele. Foi com base neste círculo que se fundou, em 1895, a «Uniom de Luita pola Emancipaçom da Classe Operária». (N. Ed.)